A terceira aula da disciplina Automação e Sociedade me levou a um território que considero dos mais sensíveis quando falamos de tecnologia: a saúde. Afinal, aqui a automação não otimiza a produção de um parafuso, ela media o cuidado com o corpo humano. Fichei dois artigos que, juntos, formam um retrato completo: um olha de perto, na sala cirúrgica; o outro olha de cima, no ecossistema tecnológico. Vou começar pelo que mais me marcou.
Perder o tato: a cirurgia robótica por dentro
O primeiro artigo é "Losing Touch: An Embodiment Perspective on Coordination in Robotic Surgery", de Anastasia Sergeeva, Marleen Huysman e Samer Faraj, publicado em 2020 na Organization Science (Qualis A1, fator de impacto 5.4). O título já é uma provocação: "perdendo o toque".
Os autores acompanharam, ao longo de cerca de 25 meses, um hospital europeu que adotou o sistema de cirurgia robótica Da Vinci. Foi uma etnografia organizacional de fôlego: observação direta de cirurgias robóticas e tradicionais, entrevistas com cirurgiões, enfermeiros, anestesiologistas e residentes. A pergunta que guiou o estudo é fascinante: como a introdução do robô muda a forma como a equipe coordena o trabalho?
A resposta passa por um conceito que eu não conhecia: a incorporação (embodiment). A tese é que a coordenação numa equipe cirúrgica não depende só de comunicação e estruturas formais, mas também de dimensões corporais e sensoriais, e é exatamente isso que a tecnologia altera.
O que se ganha e o que se perde
O robô amplia capacidades importantes: precisão, visualização, controle dos instrumentos. Mas, em troca, reduz o feedback tátil e a percepção direta do ambiente cirúrgico. O cirurgião deixa de sentir o tecido com as próprias mãos. Essa perda sensorial não é um detalhe: ela reorganiza toda a dinâmica da sala.
Os achados são reveladores. A equipe precisa criar novos mecanismos de coordenação: muda a disposição espacial das pessoas na sala, redistribui tarefas e passa a depender muito mais de informação visual e mediada por tela. Surgem soluções improvisadas para contornar as limitações do sistema. E, talvez o mais impactante socialmente, os papéis profissionais se transformam: enfermeiros assumem responsabilidades técnicas mais amplas, residentes enfrentam um processo de aprendizagem alterado, e o cirurgião passa a atuar mais como operador de um sistema do que como coordenador direto da equipe.
Aqui faço uma ponte com o post anterior desta série, sobre improvisação. Não é coincidência. Tanto na gestão de projetos quanto na sala cirúrgica, a tecnologia gera situações imprevistas que exigem adaptação humana. A capacidade de improvisar reaparece como elemento central para lidar com a mudança.
A visão de cima: o ecossistema da Healthcare 4.0
O segundo artigo é "Industry 4.0 and Health: Internet of Things, Big Data, and Cloud Computing for Healthcare 4.0", de Giuseppe Aceto, Valerio Persico e Antonio Pescapé, publicado em 2020 no Journal of Industrial Information Integration (Qualis A1, fator de impacto expressivo de 11.6). Se Sergeeva e colegas mostram a árvore, Aceto e colegas mostram a floresta.
Por meio de uma revisão sistemática que partiu de mais de 800 trabalhos, os autores mapeiam como as tecnologias da Indústria 4.0 estão migrando para a saúde, transformando o velho conceito de eHealth na chamada Healthcare 4.0. A base tecnológica se apoia em três pilares que se complementam:
- Internet das Coisas (IoT): conecta sensores e dispositivos médicos, permitindo o monitoramento remoto de pacientes e a coleta de dados fisiológicos em tempo real.
- Computação em nuvem: oferece infraestrutura escalável para armazenar e processar esse volume de dados.
- Big Data: extrai informação útil para diagnóstico, acompanhamento clínico e gestão.
A convergência desses pilares habilita aplicações como telemedicina, monitoramento domiciliar, medicina personalizada e sistemas inteligentes de apoio à decisão clínica. É a saúde saindo do hospital e indo para a casa, para o pulso, para o corpo.
Os desafios que os autores não escondem
Mas o artigo é honesto quanto aos obstáculos: segurança da informação, interoperabilidade entre sistemas e a gestão de imensos volumes de dados médicos são desafios reais. E, ao fichar o texto, anotei uma limitação que me parece a mais importante: o tratamento dos aspectos sociais, éticos e regulatórios é feito de forma genérica. Questões como privacidade dos dados médicos e desigualdade de acesso às tecnologias digitais mereciam muito mais profundidade.
Uma reflexão sobre o corpo virando dado
Junto, esses dois artigos me deixaram uma inquietação produtiva. A Healthcare 4.0 promete eficiência, acesso ampliado e cuidado contínuo e personalizado, e isso é genuinamente promissor. Mas o estudo da cirurgia robótica nos lembra que toda mediação tecnológica tem um custo invisível. Ganhamos precisão, perdemos tato. Ganhamos dados, e precisamos perguntar quem os controla.
Do ponto de vista de Automação e Sociedade, a lição central é que sistemas tecnológicos complexos não substituem simplesmente o trabalho humano: eles o reconfiguram. Reorganizam relações entre pessoas, máquinas e instituições. Quando o corpo do paciente vira fluxo de dados e o gesto do cirurgião vira comando de tela, a pergunta não é só "funciona melhor?", mas "o que estamos transformando no cuidado, na privacidade e em quem cuida?". É uma pergunta que a engenharia sozinha não responde, e por isso ela está no coração desta disciplina.