Existe uma palavra que carrega um certo estigma no mundo corporativo: improvisação. Quem nunca ouviu, em tom de reprovação, que "fulano improvisou" porque o planejamento falhou? Pois a segunda aula da disciplina Automação e Sociedade me fez repensar completamente esse conceito. E, como pesquisador, gosto quando um artigo vira de cabeça para baixo uma ideia que eu tomava como óbvia.
O texto que fichei nesta aula foi "Facing the Challenge of Improvisation in Project Management", de Guilherme Malucelli, Marcos T. J. Barbosa e Marly Monteiro de Carvalho, publicado em 2021 no International Journal of Managing Projects in Business (Qualis A3). O artigo investiga um tema que, à primeira vista, soa contraditório: como pode haver improvisação numa disciplina que é toda sobre planejar?
O que os autores foram investigar
O objetivo central do estudo é entender o papel da improvisação na gestão de projetos: como ela emerge durante a execução e quais fatores favorecem seu surgimento. Os autores mapearam a literatura para identificar os temas e abordagens recorrentes, analisando como fatores como incerteza, complexidade, contingência e urgência contribuem para ações improvisadas.
Metodologicamente, eles fizeram uma revisão sistemática da literatura, combinando análise bibliométrica e análise de conteúdo. Buscaram artigos nas bases Web of Science e Scopus, aplicaram critérios de filtragem e, em seguida, mapearam padrões de publicação, redes de citação e palavras-chave recorrentes. Achei essa escolha metodológica especialmente coerente: para entender um fenômeno difuso como a improvisação, faz sentido olhar de cima, ver o mapa inteiro do campo.
O achado que muda a perspectiva
O resultado mais interessante para mim foi a constatação de que a improvisação não é apenas uma resposta emergencial a falhas de planejamento. Ela aparece, na literatura, associada a competências valiosas como criatividade, intuição, inovação e adaptabilidade, justamente as habilidades necessárias para lidar com ambientes complexos e incertos.
Em outras palavras: improvisar pode ser uma capacidade organizacional legítima, e não um remendo. Os fatores que mais disparam práticas improvisadas são a incerteza, a urgência, a contingência e a complexidade dos projetos. Quando o terreno é instável, a capacidade de responder rápido e de forma criativa deixa de ser um defeito e vira um diferencial.
Improvisar não é o oposto de planejar
A conclusão dos autores é que a improvisação deve ser compreendida como uma competência necessária, sobretudo em contextos de elevada incerteza e dinamismo. Eles também destacam que as habilidades cognitivas e a experiência prévia dos gestores são determinantes para desenvolver essa capacidade. Ou seja, improvisar bem não é sorte: é fruto de repertório acumulado.
Como reflexão crítica, o artigo dialoga diretamente com tendências atuais de métodos ágeis e gestão adaptativa, nos quais flexibilidade e aprendizado contínuo assumem o centro. Foi aqui que conectei o tema à espinha dorsal da disciplina. Vivemos um momento em que a tecnologia acelera mudanças a uma velocidade que nenhum planejamento detalhado consegue antecipar por completo. Nesse cenário, exigir que tudo seja previsto é, paradoxalmente, uma receita para a rigidez e o fracasso.
Por que isso importa para "Automação e Sociedade"
Pode parecer que um artigo sobre gestão de projetos está deslocado numa disciplina sobre automação. Mas não está. Há um fio condutor claro: quanto mais automatizado e complexo um ambiente de trabalho, mais imprevisíveis se tornam as situações que escapam ao roteiro. A automação não elimina o imprevisto, ela o desloca para camadas mais sofisticadas. E quando o imprevisto chega, é a capacidade humana de improvisar, adaptar e criar que faz a diferença.
Isso me leva a uma reflexão de impacto social. Há um discurso, muito comum, de que a tecnologia tornará o trabalho humano cada vez mais previsível e "scriptado", reduzindo as pessoas a executoras de procedimentos. O artigo de Malucelli e colegas aponta na direção contrária: valoriza justamente aquilo que é mais difícil de automatizar, o julgamento situado, a criatividade sob pressão, a leitura fina do contexto. São essas competências profundamente humanas que ganham valor à medida que o resto se automatiza.
Limitações e o que fica
Como bom trabalho acadêmico, o artigo reconhece suas limitações. Por ser uma revisão sistemática de caráter exploratório, a seleção de bases e palavras-chave pode restringir o alcance dos resultados. Além disso, os autores notam a predominância de estudos qualitativos, apontando a carência de pesquisas empíricas quantitativas que validem de forma mais robusta as relações propostas.
Fica para mim uma ideia simples e poderosa: planejar continua essencial, mas saber improvisar quando o plano encontra a realidade é uma competência estratégica, não um sinal de fraqueza. Num mundo de incerteza crescente, talvez a maior habilidade que possamos desenvolver, individual e organizacionalmente, seja exatamente essa: a de responder bem àquilo que não estava na planilha.