Chegamos à quinta aula da disciplina Automação e Sociedade, e o tema é, talvez, o mais presente no nosso dia a dia: a plataformização do capitalismo. Todos nós já pedimos um Uber, reservamos um Airbnb ou contratamos um serviço por aplicativo. Mas você já parou para pensar no que realmente significa chamar isso de "economia do compartilhamento"? O artigo que resenhei nesta aula desmonta esse rótulo com uma precisão cirúrgica.

Trata-se de "The 'sharing' economy: labor, inequality, and social connection on for-profit platforms", de Juliet B. Schor e William Attwood-Charles, publicado em 2017 na Sociology Compass. Repare nas aspas em "sharing": elas não são decorativas. São o coração do argumento.

Quem são os autores e o que se propõem

Juliet Schor é professora de Sociologia no Boston College e uma referência mundial no estudo de trabalho e consumo, autora de clássicos como The Overworked American. William Attwood-Charles era, à época, doutorando em sua equipe de pesquisa. Juntos, fazem uma revisão crítica da literatura emergente sobre as plataformas digitais que explodiram a partir de 2008, em plena crise financeira global.

O artigo organiza a análise em torno de três dimensões: conexão social, condições de trabalho e desigualdades. E já avisa que o recorte é o das plataformas com fins lucrativos nos Estados Unidos, um detalhe que faz toda a diferença na conclusão.

A linguagem do "compartilhamento" como estratégia

O primeiro golpe do artigo é conceitual. Apoiando-se em autores como Russell Belk, que defende que o compartilhamento genuíno é incompatível com a troca monetária, os autores mostram como o termo "compartilhamento" funcionou como estratégia discursiva para capturar boa vontade e legitimidade nas fases iniciais do setor. Chamar de "compartilhamento" o que é, na prática, aluguel e prestação de serviço mediada por uma empresa que cobra comissão é, no mínimo, uma escolha conveniente de palavras.

Achei brilhante essa coragem intelectual de questionar termos aparentemente neutros ou positivos. Como anotei na resenha, eles revelam como uma palavra simpática pode legitimar práticas que, examinadas de perto, são bem menos generosas.

O que a evidência empírica mostra

Aqui o artigo abandona a retórica e vai aos dados, inclusive a entrevistas com 102 trabalhadores de seis plataformas, coletadas pela própria equipe de Schor entre 2013 e 2017.

Conexão social: algumas plataformas, sobretudo o Airbnb, realmente promovem interações significativas, anfitriões e hóspedes que compartilham refeições, viram amigos. Mas essas conexões tendem a diminuir com o tempo, à medida que as motivações ideológicas dos primeiros usuários cedem lugar às financeiras e crescem as listagens de imóveis inteiros, sem presença do anfitrião.

Condições de trabalho: a trajetória geral é de intensificação da concorrência, mais controle das plataformas e redução dos ganhos, especialmente na base. Quase todas classificam os trabalhadores como "contratados independentes", o que os priva de direitos e benefícios. E aqui entra o que dá título a este post: o controle algorítmico. Notificações, métricas de desempenho e gamificação direcionam o comportamento dos trabalhadores sem estabelecer formalmente uma relação de emprego. O algoritmo dá ordens, mas nenhuma empresa assume ser o patrão. A satisfação, reveladoramente, está ligada à dependência financeira: os 26% que vivem da plataforma relatam condições muito mais precárias que os 32% que a usam como renda extra.

Desigualdades: esta é a seção mais contundente, e a mais sólida do artigo. Todos os estudos revisados que testaram discriminação racial encontraram viés. Anfitriões negros no Airbnb cobram diárias sistematicamente mais baixas; hóspedes com nomes associados a afro-americanos têm 16% mais chance de ter reservas rejeitadas. No Uber e Lyft, motoristas cancelam mais corridas de usuários com nomes afro-americanos, e mulheres são levadas por rotas mais longas. Além da discriminação interpessoal, as plataformas baseadas em ativos (como o Airbnb) privilegiam quem já tem capital, imóveis, carros, que se concentra entre brancos e classes mais altas.

O algoritmo como nova fábrica

A discussão teórica que mais me marcou foi a comparação, feita por Kenney e Zysman, entre as plataformas e o antigo sistema de trabalho domiciliar (putting-out system) do capitalismo industrial. Contra a narrativa otimista de uma "sociedade de micro-empreendedores", os autores mostram plataformas acumulando poder estrutural sobre trabalhadores atomizados, isolados, sem coletivo, sem sindicato, sem vínculo. É a fábrica sem as paredes da fábrica, mas com um capataz invisível: o algoritmo.

Há ainda a inquietante ideia da comodificação da vida cotidiana: ao monetizar práticas como hospedar um amigo ou pedir um favor, as plataformas podem estar corroendo formas de reciprocidade não mercantil. Aquilo que antes era gentileza vira transação.

A conclusão não está dada

E aqui está o que mais me agradou: os autores recusam o determinismo tecnológico. A economia de plataforma tende ao trabalho precário e ao aprofundamento de desigualdades, sim, mas o futuro não está escrito pela tecnologia, e sim por escolhas sociais, políticas e econômicas. Eles apontam caminhos progressistas: o cooperativismo de plataforma (propriedade coletiva pelos trabalhadores), a organização e greves de trabalhadores, e cidades que regulam ativamente o setor, como Seul e Amsterdã.

Na minha opinião, registrada na resenha, o maior mérito do artigo é conectar achados empíricos a frameworks teóricos consolidados. Sua fragilidade é generalizar a partir de Airbnb e Uber, as plataformas mais estudadas, mas não necessariamente as mais representativas. Para nós, brasileiros, o quadro precisa ser adaptado a uma realidade de desigualdades mais agudas e informalidade preexistente. Ainda assim, as categorias que ele oferece, dependência da plataforma, discriminação algorítmica, comodificação da vida cotidiana, descrevem com precisão o mundo em que entregadores e motoristas vivem aqui, hoje. E nos obrigam a perguntar: que tipo de sociedade estamos construindo quando o nosso novo chefe é um algoritmo que ninguém assume comandar?