A oitava aula da disciplina Automação e Sociedade, no meu mestrado na USP, tratou de um tema que vivo na pele todos os dias: o impacto da inteligência artificial sobre a sociedade. Fichei dois artigos de 2024 que, juntos, formam um retrato curioso. Um olha para o que a IA faz com nossas habilidades; o outro, para como nós percebemos a IA. Um analisa comportamento; o outro, sentimento. E ambos chegam à mesma conclusão incômoda: o futuro da IA depende menos da tecnologia em si do que da nossa relação com ela.

O que o ChatGPT faz com as habilidades humanas

O primeiro fichamento foi do artigo de Giussani, Gastaldi e Verganti (2024), "The impact of ChatGPT on human skills: A quantitative study on Twitter data", publicado na Technological Forecasting and Social Change (Qualis A1, com um impressionante fator de impacto de 13,3).

A metodologia me agradou pela criatividade. Os autores coletaram tweets sobre o ChatGPT publicados entre novembro de 2022 e janeiro de 2023 — justamente os primeiros meses da explosão da ferramenta. Usando Processamento de Linguagem Natural, identificaram as tarefas que as pessoas mencionavam realizar com a IA e as vincularam à taxonomia ESCO, usada na União Europeia para classificar habilidades e ocupações. Em seguida, fizeram análise de sentimento.

O resultado mais marcante: o impacto não se concentra na programação, como o senso comum supõe. As competências mais afetadas são comunicação, criatividade e colaboração, seguidas de habilidades digitais e técnicas. O uso da ferramenta alcança escrita, produção de conteúdo, geração de ideias, apoio educacional e resolução de problemas. A análise de sentimento revelou predominância de percepções positivas, sobretudo ligadas à produtividade — mas também preocupações com confiabilidade, uso indevido e efeitos sobre o emprego.

O que esse artigo me ensinou é que a IA generativa atinge o trabalho intelectual e simbólico, e não apenas o repetitivo. E que adotá-la bem exige novas competências: formular bons prompts, avaliar criticamente as respostas e compreender as limitações do sistema. A IA não elimina o humano — ela muda a natureza do que se espera dele.

Como a sociedade enxerga a IA

O segundo fichamento foi do artigo de Gabbiadini, Durante, Baldissarri e Andrighetto (2024), "Artificial Intelligence in the Eyes of Society", publicado na Human Behavior and Emerging Technologies (Qualis A2). Aqui o foco é a percepção pública, organizada em duas dimensões: risco social percebido e valor social percebido.

O estudo teve duas etapas. Na preliminar, 291 participantes responderam escalas validadas por análises fatoriais e testes de confiabilidade. Na principal, após pré-teste com 95 aplicações, 25 aplicações de IA foram avaliadas por 399 participantes e organizadas em seis clusters.

Os achados são instigantes. Risco e valor são dimensões distintas e negativamente relacionadas: quanto maior o risco percebido, menor o valor atribuído. Aplicações médicas — como cirurgia assistida e diagnóstico automatizado — foram vistas como mais arriscadas, enquanto assistentes virtuais e sistemas de recomendação foram percebidos como mais valiosos, provavelmente pela familiaridade cotidiana. E há um dado que considero estratégico: participantes com maior conhecimento sobre IA demonstraram avaliações mais positivas.

A conclusão dos autores é que a aceitação da IA depende do contexto de uso, não apenas da tecnologia. Sistemas tecnicamente avançados podem fracassar se ignorarem expectativas sociais, transparência e responsabilidade ética.

Dois lados da mesma moeda

Lendo os dois, percebi uma simetria. Giussani et al. mostram que a IA transforma nossas habilidades; Gabbiadini et al. mostram que nossa percepção determina quais aplicações de IA prosperam. De um lado, a tecnologia molda o humano; de outro, o humano molda o destino da tecnologia. E o elo entre ambos é o conhecimento: quanto mais a sociedade entende a IA, mais equilibrada — nem ingênua, nem aterrorizada — tende a ser sua relação com ela.

Uma reflexão crítica

Para a disciplina Automação e Sociedade, esses artigos reforçam algo que considero central: a automação não é só uma questão de produtividade, mas de legitimidade social e confiança pública.

O achado de que mais conhecimento gera percepções mais positivas tem um lado luminoso e outro sombrio. O lado luminoso é o argumento a favor da alfabetização digital: educar as pessoas sobre IA pode construir uma relação mais crítica e madura. O lado sombrio é que o desconhecimento pode tanto ampliar medos difusos quanto levar à subestimação de riscos reais — especialmente em casos de manipulação informacional e uso político da tecnologia.

Também me preocupa a questão do trabalho. Se a IA generativa redefine competências de comunicação, escrita e criatividade — áreas antes vistas como "à prova de automação" —, a pergunta sobre adaptação institucional se torna urgente. Escolas, universidades e empresas precisarão repensar como capacitam as pessoas. E aqui há um risco de exclusão: quem terá acesso a essa requalificação?

O que levo desses dois fichamentos é a convicção de que o futuro da inteligência artificial dependerá tanto da inovação computacional quanto da confiança que ela conseguir construir junto à sociedade. Tecnologia sem legitimidade social é um castelo de areia — por mais sofisticada que seja.